desenho de MIMA no fim cada mania acha seu louco

Cortinas do solstício

21/06/10

Do lado de cá do fim do mundo o último anoitecer do outono foi espetacular. Fecharam-se as cortinas do palco, para as reabrir na estréia do inverno, com cores feéricas, generosas e intensas, depois de um dia muito seco, com céu de pálido azul, empalidecido por névoas e um ar imundo, difícil de respirar. O pôr-do-sol, por isto mesmo, acendeu-se monumental sobre o horizonte, queimada imensa a incendiar nuvens e rasgos de nuvens dispersos como se fossem estes também braseiros a arder e tingir de estranho alaranjado a paisagem, perplexa em si ante tanto esplendor.

Só após sumir o sol, coube aos céus um azul profundo, raro, ressaltado entre faixas desordenadas de mil tonalidades rosáceas e alaranjadas, brilhantes. E neste azul severo seria impossível não parar o olhar no brilho extravagante da estrela da tarde, a estrela vésper, o planeta Vênus, mais luminoso do que a mais luminosa estrela, Sírius. O planeta luzia como farol no mar da imensidão. Acima, a lua já tecia sombras no chão e folhas caídas reencontravam seus ramos nas tênues sombras. A beleza da cena parecia obrigar tudo a calar.

A segunda-feira trará consigo a nova estação, inverno, verão, tempo de extremos. Tempo de dias prolongados e noites rápidas ou vice-versa, pois a verdade se alterna de cada lado do equador. Inverno ou verão, celebra-se o ponto de inflexão, a mudança de direção rumo ao extremo oposto, o solstício de dezembro.

Sonhei um pião Terra a girar em pé, com o eixo perpendicular ao chão, ao plano da órbita ao redor do sol - seria equinócio o ano inteiro, com o nascer e o pôr do sol às seis horas em todos os dias! Mas quis o acaso um eixo assim torto a nos dividir e a oscilar qual pêndulo de uma a outra estação.

Possam ser inverno e verão tão esplêndidos como as cortinas por aqui estendidas nos céus!

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